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 Amantes de Calopsitas



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Historias de Calopsitas

Era domingo.

Daqueles domingos em que a claridade torna o dia  tão radiante  que nem os prédios erguidos ao redor das casas conseguem  ofuscar o brilho! Estranho como domingo tem expressão, tem personalidade! Ninguém confunde este dia com outro, porque domingo tem cara de domingo e nada mais.   

Domingo é domingo em todos os lugares do mundo, até nas grandes metrópoles. E foi lá na capital, no meio do caos, onde casas atrevidas insistiam em afrontar os arranha-céus com suas presenças, que aconteceu um achado!

             Sannga  acabava de acordar.  Espreguiçou, saiu lentamente da cama, foi até a janela  inspirou, expirou,  fechou os olhos  e deixou  o calor aquecer suas faces. Como era gostoso!  Como era bom se esticar! Continuaria no enlevo não fosse pelo barulho de algo que passou raspando pelo seu corpo e caiu  debaixo  da janela.  Curiosa,  apurou a visão e, logo viu: No meio da grama  um filhotinho de pássaro contorcia-se tentando levantar-se.

Pobrezinho! De onde teria  caído? Onde estariam seus pais e como teria saído do ninho? Sannga menina, quase mocinha,  pulou pela janela e recolheu a criaturinha, cujos olhos   ainda nem tinham aberto.  Um bebê pássaro. Um bebê  que se encolhia dando a entender que queria voltar para o ninho e era de dar dó.

             A menina olhou  para cima, procurou, mas não conseguiu atinar  de onde ele caiu. Havia uma árvore,  alta, folhas estreitas que deixavam os raios de sol atravessá-las. Os olhos de Sannga investigaram  os galhos para encontrar um vestígio da mamãe pássara em busca do filhote... mas nada!

Pesarosa, ela o acolheu e levou-o para dentro, confortando-o. Seus pais ajudaram a armar  uma caminha de algodão dentro de uma caixa de sapatos, onde o pequeno  asado se acomodou e, imediatamente, abriu o bico pedindo comida.

Estava faminto e fazia-se entender.

Sannga preparou uma papa e, com um palito de picolé, o alimentou. Depois o  aconchegou no peito  acariciando, suavemente, sua  cabecinha. Tão suave que, o pequeno filhote, mostrando-se tranqüilo e contente com o carinho,  permitiu durante semanas  que o ritual se repetisse criando um laço de  grande amizade.

Sannga ainda não sabia a identidade de seu amiguinho e decidiu chamá-lo de Elliot.

Ah! Elliot era um lindo nome!  Nome que dava a sensação de  amigo afável e inseparável. Tipo de amigo que  nos acolhe nas alegrias e nas tristezas.   Nome que, lembrava talvez, personagem de   romance que enleva e deixa uma sensação de ternura que perdura por dias e dias.

Sim, ele era Elliot.

             Com tanta comida boa, alpiste do bom, frutas fresquinhas, Elliot logo se revelou: Era um sabiá. Um lindo sabiá que cantava maravilhosamente e que crescia dentro da casa sem que   Sannga  o aprisionasse.

Durante o dia, ele seguia Sannga por onde quer que ela fosse. Sem ela, Elliot não ia para longe. Ficava se divertindo voando da casa para as árvores próximas e vice-versa e, à noite, ele mesmo escolhia onde dormir. No começo, ela pensou que ele pudesse querer ir dormir  na árvore.  Ele não quis. Ficou, uma vez, até findar a tarde e antes que escurecesse  voltou  e foi para o poleiro que Sannga havia  adaptado na parede do quarto, ao lado de sua cama.

Ela queria vê-lo solto. Se um dia Elliot fosse embora, doeria, mas ela não  impediria o vôo de sua liberdade.  Assim, ele sempre voltava para a moça a quem, provavelmente, considerava sua família, seu bando, sua referência.

             Pela região, todos os vizinhos o conheciam. Estavam acostumados a vê-lo no ombro de Sannga quando ela ia à padaria.  Ele gostava de brincar e voar pelas árvores do parque ao lado, mas quando  as pessoas o viam, não o confundiam com outros sabiás por causa do seu jeito manso. Todos sabiam que ele era  “o Elliot da Sannga”.

Ele trouxe mais alegria para sua casa, dizia Petrônio, pai de Sannga, que também não se cansava de  adular o pássaro.  Elliot trouxe sorte.

Sim, trouxe,  pois todos tinham mais sorrisos e mais disposição para trabalhar.  E que dizer da cantoria que ele fazia todas as madrugadas? Ao primeiro sinal de claridade ele já dava seu primeiro gorjeio e,  em seguida, emendava com uma bela melodia.

Sabiá laranjeira, diziam os mais sabidos. Um sabiá laranjeira que canta fora da laranjeira, brincavam os galhofeiros, mas a verdade é que todos o conheciam e a admiração de todos fazia com que ele fosse protegido pela atenção e cuidado coletivo.

Elliot ficou íntimo de todos da casa. Quem diria! Ele gostava de comer frutas ou jiló, bem ali na mesa junto às pessoas.  Afinal ele era da família e fazia por merecer. Ele era o despertador oficial e musical que não deixava ninguém perder a hora do trabalho.   Nos finais de tarde, depois que Sannga voltava, porque não tirar um cochilo em seu peito  enquanto ela via seu programa predileto de tv?

             Petrônio, em certas ocasiões, convidava amigos para fazerem churrasco. Numa dessas ocasiões  Elliot resolveu implicar com André,  amigo de Petrônio.

Não podia vê-lo. Fazia questão de  sobrevoar  sua cabeça dando rasantes e, de vez em quando, dava um jeito de  fazer cocô nas costas  ou no colo de André.  Jandira, mãe de Sannga achava muita graça. Estranho... ela também não gostava de André que se mostrava cético com o pássaro. André parecia-se  com as pessoas que perderam a crença na vida e que  só se importavam com o  dinheiro. Pessoas para quem  o mundo financeiro ocupava o maior espaço e a maior atenção.

Ele era muito amigo de Petrônio, mas tratava Jandira à distância como se o universo feminino não fosse relevante para ele, ou como se ele julgasse a figura feminina inferior à força masculina. Provavelmente, em seu íntimo, criticava  todos da casa por tratarem Elliot como  um igual.

Tais deduções faziam com que Jandira realmente desejasse que ele se afastasse.  Claro que ela não podia fazer cocô nele, mas se deliciava e se realizava  com as atitudes de Elliot que não deixava por menos.

Petrônio vivia se gabando do canto de Elliot e, certa vez, apostou com os amigos  que Elliot cantaria se Sannga cantasse também. Havia muita animação na brincadeira e Petrônio dava a aposta como ganha.

Sannga chegou trazendo Elliot no ombro. Ele havia tomado banho e untava as penas num ritual descontraído. Sannga riu da aposta. Ela conhecia Elliot e sabendo que ele detestava André,  duvidava bastante de que ele soltasse um pio aonde  André estivesse.

Quando Elliot viu André, saiu do ombro de Sannga, fez um círculo no ar e, ao passar  sobre a cabeça de André,  soltou sua carga de dejetos intestinais. Apenas casualidade? Mesmo assim todos riram com a implicância,  sem motivo aparente, de Elliot.

Petrônio pediu a Sannga  e ela cantou, mas Elliot  permaneceu mudo e, logo,  voou para a árvore mais próxima.  Os amigos fizeram  bagunça e deram risadas de Petrônio que perdeu a aposta, mas que continuava  num bom humor sem fim.

             A alegria havia engolido as horas e o churrasco findou. André foi o primeiro a se retirar e assim que ele saiu Elliot voltou da árvore para o ombro da dona que puxou uma música de que ela gostava desde as épocas de infância. Pouco depois, Elliot se pôs a cantar contente. Era incrível como ele não suportava André.  Petrônio fez cara de amuado e fingiu repreender Elliot por causar a perda da aposta, mas sem conseguir convencer acabou por rir e reafirmar que Elliot trouxe muitas alegrias para  a sua casa.

             Anos se passaram. A vida trouxe transformações. Veio a doença.  Sannga mostrava-se frágil, estava pálida e emagreceu muito. Chegou o inverno, a dor, a tristeza e a confirmação: Era muito grave!

Ela começou fazendo o tratamento em  casa onde ficava com Elliot. Por vezes sentava-se numa cadeira de balanço,  na varanda dos fundos.  Aproveitava o sol da manhã enquanto o amiguinho voava da árvore para seu ombro ou ficava pousado em seus joelhos, untando as penas depois de ter tomado banho no esguicho de jardim.

Elliot continuava sendo a grande alegria de Sannga. Estava mais próximo a ela, mais unido ainda, talvez tentando intuitivamente, compensá-la. Ao lado dele, ela sorria e até esboçava curtas cantigas que eram interrompidas por expressões de dor.

Em  meses Sannga   definhou. Os remédios já não eram eficazes e todos   encontravam-se imobilizados pela força do mal que arrastava a moça. Pouco a fazer. O tempo  se esvaia e Sannga não podia mais permanecer em casa.

Precisava  do tratamento do hospital.

             Da cama, Sannga acompanhava Jandira arrumando sua mala. Não pediu livros e nem microfones para o som. Jandira estava abatida e as lágrimas inundavam suas faces, mas Sannga estava  calma. Acariciava a cabeça de Elliot que,  pousado em seu peito, permanecia seu cúmplice. Nada havia mais terno que a presença e a compreensão silenciosa de seu companheiro.

Faculdade, namorados, diversões... tudo ficava para trás, mas a imagem de Elliot a seu lado, gravava forte uma cena inesquecível para  quem pudesse enxergar nas profundidades, bem além da visão comum.

A ambulância chegou.  Petrônio entrou no quarto e trocou um olhar significativo com a filha. Não havia palavras. Tudo era dor. Apenas a presença do pássaro lembrava a força da vida.

Talvez Sannga não visse mais Elliot e tal possibilidade não escapava de seu entendimento, então, na saída,  pegou-o com as duas mãos, segurou-o e beijou-o docemente.

Petrônio  carregou-a no colo em direção à ambulância, enquanto o olhar de Sannga acompanhava Elliot que havia voado e pousado num galho da roseira, perto da porta de entrada.

             Sannga nunca mais voltou. As luzes se apagaram, as cores se perderam e a casa se esvaziou.  Elliot  andou amuado e não queria mais saber de cantar e nem de comer com o mesmo apetite de antigamente. Petrônio e Jandira passavam as noites em sobressalto.

Acordavam bruscamente. Os dias não queriam fluir e  as horas vagavam pela rotina sem som e sem expectativa, tornando difícil que qualquer um dos dois se desse conta da duração do tempo.

             Já era verão, outra vez.  Pouco a pouco, a dor da ausência foi sendo transformada em saudade.   Elliot continuou dormindo no quarto de Sannga e voltou a cumprir em todas as madrugadas seu ritual de canto, acordando  todos. Quando Jandira ia colocar a mesa, ele já estava empoleirado em alguma cadeira esperando para lancharem juntos.

Petrônio passou a andar com Elliot  por quase todos os lugares. Sempre que abria a porta, lá ia ele voando para o ombro de Petrônio. A presença de Elliot era como se tornasse possível,   também a presença  de Sannga. Vê-lo cantar era como ver Sannga sorrir.  A presença dele  era como  o sentimento de que um dia iria voltar o alguém que se foi.

             Assim, a vida foi sendo  redesenhada. O sorriso, vagarosamente,  voltou às faces. Os vizinhos quando os viam acenavam e comentavam como antigamente: “Olha lá o Elliot da Sannga”.

Jandira e Petrônio compreenderam que deveriam seguir em frente e   sempre que a saudade doía  Elliot fazia com que qualquer dia da semana tivesse cara de domingo. Porque domingo é dia de encontro. É  nele que as distancias se encurtam e que as pessoas entre dimensões se tocam.

Então Elliot traria Sannga  de volta porque faria de todos os dias, dia de domingo de sol.

 

                                         FIM

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